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A ciência avança rapidamente e este blog nasce com o propósito de traduzir esse conhecimento tanto para o público que busca apoio quanto para profissionais da área. 

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27/03/2026

Homens, saúde mental e o uso de substâncias

Os homens, muitas vezes, têm dificuldades em investir na sua saúde mental porque isso envolve entrar em contato direto com as suas emoções. Assim, a grande maioria não se sente confortável com tal situação, vendo essa questão como um sinal de fraqueza o que, infelizmente, os afasta de procurar ajuda.

Apesar de o uso de substâncias poder afetar qualquer pessoa, os homens enfrentam desafios específicos, quando se trata desse tema que muitos desconhecem. Segundo os dados da literatura, os homens são mais propensos a abusar de substâncias do que as mulheres por diversas razões, tanto biológicas, quanto sociais e econômicas. Esses fatores de risco contribuem para uma taxa de dependência nos homens que é bem maior do que a das mulheres, contribuindo para o efeito negativo que o uso de substâncias pode ter na saúde física e mental deles.

Essa disparidade se reflete no fato de que os homens são mais propensos a beber excessivamente, o que está associado a maiores taxas de mortes relacionadas com o uso do álcool, hospitalizações e comportamentos de risco, como beber e conduzir. Além disso, o uso de substâncias está associado a diversos outros transtornos mentais, como transtornos de ansiedade, depressão, transtorno do estresse pós-traumático, transtorno bipolar e esquizofrenia. Os homens recorrem, frequentemente, à automedicação, através do uso de substâncias, quando enfrentam um transtorno de saúde mental. Em decorrência, costumam ter um transtorno por uso de substâncias por muito mais tempo do que as mulheres, sendo um dos motivos a demora na busca por ajuda.

Observa-se, nesse contexto, que o uso prolongado de substâncias também afeta à saúde como um todo. Diversas pesquisas mostram que há uma maior taxa de outras doenças clínicas como diversos tipos de cânceres (esôfago, pulmão, fígado, intestino), infecções (hepatites, HIV), doenças cardíacas (infarto) e cerebrovasculares (AVC), assim como a diminuição dos níveis de testosterona, disfunção sexual e infertilidade.

Considerando os contextos socioculturais, os homens, muitas vezes, hesitam em procurar tratamento para enfrentar os seus problemas de saúde mental. Obter acesso a cuidados eficazes é o primeiro passo para a recuperação. A ajuda profissional, associada a programas de tratamento que visam abordar o uso de substâncias e outras comorbidades são eficazes na busca de resultados bem-sucedidos. Como o uso de substâncias pode afetar muitos aspectos da vida de uma pessoa, o tratamento deve atender às necessidades globais de cada indivíduo para ter sucesso. Dessa forma, mudanças no estilo de vida, como a prática de exercícios físicos, uma alimentação equilibrada e uma qualidade de sono são pilares fundamentais na construção de uma vida longa, saudável, feliz e em recuperação.

20/02/2026

Dose segura: o ponto cego da saúde pública no Brasil


O dia 20 de fevereiro marca o Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, uma data que nos convoca a analisar dados que muitas vezes ignoramos por conveniência social. Como especialista, observo que existe uma distorção significativa entre a percepção pública e a realidade do risco associado ao álcool.

Os dados do LENAD III (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas), coordenado pela Unifesp, revelam um cenário epidemiológico crítico: 42,5% da população brasileira com 14 anos ou mais (cerca de 74 milhões de pessoas) consome bebidas alcoólicas, sendo que, aproximadamente, 657 mil adolescentes fecham critérios para o Transtorno por Uso do Álcool. A infeliz realidade é que esses jovens nem deveriam estar consumindo essa substância.

A OMS é enfática: não existe uma dose de álcool que não ofereça riscos à saúde. Além disso, um corpo robusto de estudos científicos relacionam a substância a mais de 200 doenças que agem silenciosamente no sistema nervoso central e em órgãos vitais. É nesse contexto que o álcool se torna a droga mais perigosa. Sua normalização mascara os danos neurobiológicos, retarda o diagnóstico da dependência e afasta os indivíduos de buscar ajuda.

A fronteira entre o brinde social e a doença não se mede em doses, mas no silêncio da autonomia perdida e nas ruínas da funcionalidade cotidiana. É urgente despedaçar o estigma que mascara esse abismo: o enfrentamento real exige que deixemos de tratar o álcool como um convidado inofensivo para confrontá-lo como a crise crítica de saúde pública que ele verdadeiramente representa.